Sustentabilidade:

Parece algo retrógado, mas cerca de 2 bilhões de toneladas de grãos e sementes produzidos anualmente ainda são analisados e classificados de forma manual. Sendo que esta análise usa critérios totalmente subjetivos para identificar sua qualidade e aspectos do seu crescimento que determinam como ele pode ser aproveitado. Para se ter uma ideia, atualmente, o teste frio, que calcula o vigor da semente, um dos mais comuns para milho e soja, demora 14 dias para ser finalizado. Entretanto uma empresa mineira, criada por três estudantes da área de computação e um professor de administração, vem mudando o setor de grãos e sementes e revolucionando o mercado. Trata-se da TBIT nascida na Universidade Federal de Lavras, em Minas Gerais.
A empresa conta com uma plataforma tecnológica que alia hardware e software, por meio do qual as análises manuais são substituídas por análises digitais, realizadas com base em parâmetros pré-estabelecidos. “A tecnologia traz mais agilidade, confiabilidade, precisão e padronização ao processo. Gerando sementes, grãos e plântulas de melhor qualidade e contribuindo para a solução do desafio da segurança alimentar, uma preocupação global”, reforça o diretor da TBIT Igor Chalfon.
A história da TBIT é apenas um exemplo, entre vários, de empresas de base tecnológica espalhadas pelo Brasil que, através de seus produtos e serviços, estão acelerando a performance do agronegócio brasileiro unindo tecnologia e sustentabilidade; denominado no mercado de Agritech. E são justamente estas empresas que a INSEED Investimento está em busca para aportar recursos, através do FIP FIMA Fundo de Inovação em Meio Ambiente. “O objetivo do Fundo é selecionar empresas do setor de tecnologias limpas, startups que apostem no desenvolvimento de uma economia de baixo impacto ambiental, ou que criem inovações para favorecer o desenvolvimento de ciclos produtivos sustentáveis, como a TBIT”, explica Alexandre Alves, diretor da INSEED Investimentos, enfatizando que o FIMA conta com recursos da ordem R$ 165 milhões para serem investidos em dezenas de outros negócios dentro deste perfil de tecnologia.
Para ele a adoção das inovações tecnológicas pelo setor produtivo agropecuário tem tido papel preponderante no sucesso do agronegócio brasileiro. “Esses avanços têm possibilitado ao setor ocupar uma posição de destaque no processo de desenvolvimento brasileiro. O sistema criado pela TBIT, por exemplo, já é utilizado pelas principais multinacionais da indústria agrária com atuação no Brasil”. O diretor explica ainda que a TBIT foi lançada ao mercado em 2012 e que recebeu aporte do FIMA no ano passado visando alavancar a sua operação e desenvolver novas soluções. “Em um ano, depois da entrada do Fundo, os resultados já podem ser percebidos como o aumento de 60% do faturamento e 25% da cartela de clientes”, enfatiza.
 
Para o diretor da TBIT Igor Chalfon, o aporte de R$2,1 milhões foi fundamental para conseguir se consolidar no mercado. “Com o Fundo a TBIT desenvolveu sua especialidade na busca por soluções que tangem os atuais problemas do setor, sobretudo relacionado às avaliações de qualidade, tais como a vulnerabilidade frente a possibilidade de erro humano, pouca velocidade, além da baixa padronização e confiabilidade dos resultados relativos aos atuais métodos utilizados”.
 
PERFIL DE EMPRESAS PROCURADAS DENTRO DO SETOR DE AGRONEGÓCIO
 
Um negócio que promova a inovação e tecnologia limpa em segmentos diversos na economia brasileira este é o foco do FIMA. Entre as áreas selecionados, o Fundo procura empresas que atuam, por exemplo, junto ao setor de agronegócio para aportar capital e promover seu crescimento.
 
O momento atual, segundo o gerente de Prospecção da INSEED Investimentos, João Pirola, é de busca por empresas que se enquadram no perfil para receber o aporte. “Estamos muito interessados em empresas do setor de agronegócios. Afinal este mercado é responsável por quase um quarto do Produto Interno Bruto (PIB). Em 2016, por exemplo, o setor terá um desempenho mais uma vez muito positivo, mesmo com a crise. Segundo estimativa do IBGE para a safra de grãos de 2016 — e da projeção reavaliada do Valor Bruto da Produção (VBP) pelo MAPA, da pecuária e agricultura vai crescer 0,7% sobre 2015, atingindo R$ 515,2 bilhões em 2016. Mas apesar de todo o crescimento o mercado está cada vez mais competitivo e exigente, e se adequar a ele pela inovação é o melhor caminho”, destaca.
 
Desta forma, João detalha os perfis procurados pela INSEED na área de agronegócio. “Uma área que temos grande interesse para investir são as empresas ligadas a recomendação de manejo dentro do ambiente produtivo. Ou seja, negócios com soluções ligadas a inteligência artificial e que consigam, por exemplo, através de um sistema integrado, coletar diversos dados variáveis como clima, característica de solo, histórico de produtividade e nível de contaminação e, assim, gerar automaticamente, a partir de algoritmos sofisticados, recomendação de manejo de campo. Direcionando para os responsáveis o que fazer: onde monitorar pragas, quais produtos aplicar, em quais quantidades e onde”, explica João.
 
Outro perfil procurado é de negócios que trabalhem com a valorização de resíduos agrícolas. “Empresas que realizam processamento de modo a possibilitar o aproveitamento de resíduos na agricultura e na silvicultura utilizando tecnologias para compostagem e produção de corretivo de acidez de solo e outros fertilizantes”. João lembra ainda que dentro destas áreas é exigido que as empresas estejam com o limite de faturamento anual de até R$ 20 milhões e que apresentem alto potencial de crescimento e rentabilidade. “E, claro, promova a sustentabilidade e a redução de impacto ambiental”.
 
Outra linha é o de rastreabilidade ao longo da cadeia de produção de alimentos. “Com soluções que consigam captar informações de cada elo da cadeia: da produção, do beneficiamento, da industrialização, do varejo e no pós-consumo. Tanto para entender e buscar pontos de melhoria de eficiência, quanto pontos em que consigam entender melhor o funcionamento desta cadeia, trazendo informações única”. E o último foco são negócios inovadores que envolvam agentes microbiológicos para combates a pragas, vírus e doenças, em substituição ao uso de agrotóxicos e produtos químicos, por exemplo.
SUBSTITUINDO O AGROTÓXICO OU PRODUTOS QUÍMICOS
Startup originada a partir de pesquisas na Universidade Federal de Viçosa, a Rizofora produz fungos e bactérias para o controle biológico de nematóides – praga agrícola que ataca as raízes das plantas e reduz significativamente a produtividade na agricultura. Ela foi criada como resultado de mais de 20 anos de pesquisas do professor Leandro Grassi de Freitas, do Departamento de Fitopatologia da UFV. Com produtos biológicos 100% orgânicos, a empresa apoia produtores para que colham os melhores resultados com manejo consciente. Assim, cuida das condições do solo, do desenvolvimento sustentável das plantações e beneficia produtores e consumidores, fazendo o bem ao longo de toda a cadeia.
A empresa é a única na solução de combate a nematoides disponível no mercado brasileiro “Nematoides são vermes minúsculos de solo, difíceis de controlar. Para contê-los, muitos produtores utilizam nematicidas químicos altamente tóxicos e poluentes, que deixam resíduos no lençol freático e nos alimentos. Estima-se que os nematoides causem perdas por volta dos 157 bilhões de dólares/ano na agricultura em todo o mundo”, explica João.
Outro exemplo, dentro desta mesma linha, é a paulista BUG Agentes Biológicos. Criada em 2001 ela também produz e comercializa agentes de controle macrobiológico. Esses agentes são em sua maioria vespas que parasitam ovos das principais pragas das grandes culturas. Referência global em seu segmento, a empresa foi indicada em fevereiro de 2012 pela revista Fast Company (EUA) como a empresa mais inovadora do Brasil e a 33ª em todo o mundo. No outubro do mesmo ano, a BUG também foi premiada na área de sustentabilidade com o World Technology Award, promovido nos EUA por corporações de comunicação como a CNN, Time, Science e Fortune.
Para os especialistas o controle biológico de pragas é atualmente uma das táticas mais importantes na agricultura. Já que não causa resistência e até a evita em áreas com aplicações de inseticidas ou com plantas transgênicas; não polui o solo, as águas e o ecossistema de uma forma geral; não causa intoxicação de agricultores, funcionários e consumidores, garantindo produtos de mais qualidade.
Em comum as duas empresas, além da inovação no ramo do agronegócio, também são investidas de um outro fundo de investimento, o Criatec 1, criado pelo BNDES, e co-gerido pela INSEED Investimentos.
TECNOLOGIA A FAVOR DO SETOR SUCROENERGÉTICO
Danila Passarin, pesquisadora líder do CTC – Centro de Tecnologia Canavieira, Instituição que atua há mais de 40 anos no desenvolvimento e comercialização de tecnologias inovadoras para o setor canavieiro e realiza pesquisas que abrangem os elos da cadeia produtiva de cana-de-açúcar, etanol, açúcar e bioenergia, confirma a importância da inovação como chave do agronegócio: “poder aliar conhecimento com tecnologia de última geração é de fato essencial. Utilizamos as soluções computacionais, por exemplo, da TBIT neste processo para que possamos avançar rapidamente no projeto de sementes de cana-de-açúcar e, assim, atender à exigência de alta produtividade do setor Sucroenergético”, comenta.
O CTC foi criado em 1969, em uma iniciativa de um grupo de usinas da região de Piracicaba, a 160 km da capital paulista, com o objetivo de investir no desenvolvimento de variedades mais produtivas e agregar qualidade à produção de açúcar e álcool. Em 2004, entrou em uma nova era: foi reestruturado com o objetivo de se tornar o principal centro mundial de desenvolvimento e integração de tecnologias disruptivas da indústria sucroenergética, capaz de vencer o desafio de dobrar, de maneira economicamente sustentável, a taxa de inovação do setor.
Em seus 42 anos de vida, o CTC deixou sua marca no desenvolvimento da cultura da cana-de-açúcar no Brasil. Nesse período a produtividade da cana-de-açúcar aumentou cerca de 40%, a produtividade agroindustrial saltou de 2.600 para mais de 7 mil litros de etanol por hectare, enquanto o custo de produção caiu de cerca de R$ 3,00 para menos de R$ 1,00 por litro. O CTC responde por cerca de 60% da cana-de-açúcar moída na região Centro-Sul do Brasil.