Grupo Telles, ex-Ypióca, se reinventa e mantém protagonismo nos negócios.

Reputação de uma empresa secular aliada a um modelo de gestão vertical estão entre os trunfos responsáveis pelo sucesso do empreendimento familiar.

Dados do IBGE apontam que 90% dos empreendimentos brasileiros são negócios familiares. No entanto, apenas cerca de 30% deles sobrevivem à transição para a segunda geração. O encerramento de empresas familiares, responsáveis por gerar 65% do PIB do País, podem impactar a economia como um todo.

Para especialistas em sucessão familiar, a falta de capacitação dos herdeiros, a centralização das decisões e a inexistência de diretrizes claras estão entre as principais razões que abreviam a existência de grande parte das empresas. Um planejamento estratégico com objetivos bem definidos nesse processo de passagem de bastão torna-se, dessa forma, fundamental para a longevidade de grupos empresariais familiares.

Grupo Telles, a mais antiga empresa familiar do Brasil, surge como referência nesse cenário. A história da companhia remonta a 1846, ano em que o português Dario Telles de Menezes passou a produzir aguardente de cana-de-açúcar na fazenda Ypióca, em Maranguape, no interior do Ceará. A bebida abriria caminho para uma trajetória de sucesso que atravessa cinco gerações.

Para Everardo Ferreira Telles, atual presidente do conselho do Grupo Telles, o sucesso da empresa vem justamente do fato de a mesma família estar no comando desde a fundação. “Sempre encontramos sucessores competentes entre os integrantes da família. Pautamos nossa conduta na transparência, na dignidade, no compromisso, no respeito ao meio ambiente e aos direitos sociais, e nos orgulhamos disso”, explica o executivo. “Todos esses valores têm sido essenciais para manter a cultura da empresa bem-definida”.

Visionário e com um negócio milionário em mãos, doutor Everardo, como costuma ser chamado por seus colaboradores, se empenhou para traçar um plano de sucessão que garantisse o legado construído pelos seus antecessores. No final dos anos 90 e com apoio de uma consultoria externa, o Grupo Telles se transformou em uma sociedade anônima de capital fechado. O modelo permitiu a divisão de capital por meio de cotas acionárias. O processo garante que não haja disputas por fatias dos negócios ou por cargos, pois todos os papéis já estão definidos.

Receita para o sucesso

Mas não são apenas os valores enraizados através da história secular do Grupo Telles que explicam o sucesso do empreendimento familiar. Boas práticas de gestão, sedimentadas no conceito de verticalização dos negócios, também exercem um papel de protagonismo na trajetória vencedora da empresa.

A ideia é simples: gerar negócios a partir dos já existentes, mas não se limitando a eles. Por exemplo, quando o Grupo produzia cachaça e faltou fornecedor de embalagens para o Nordeste, passou a produzir embalagens. Mas a nova empresa criada deveria fornecer também para outras empresas, garantindo assim sua perenidade. O formato defendido com garra pelo patriarca da quarta geração da família Telles é um dos responsáveis, inclusive, por garantir a reinvenção da companhia após a venda da Ypióca, em 2012.

“O Grupo Telles, ao longo do tempo, tem diversificado sua atuação, conquistando novos mercados e espaços, gerando aumento do número de seus funcionários diretos e indiretos”, explica doutor Everardo. Essa versatilidade está presente desde os anos 70; à época o investimento era na criação de frango de corte e engorda de gado, caprinos, ovinos, suínos e produção de leite, o que se transformou no braço de agronegócio do Grupo (Agropaulo Agroindustrial).

Na década de 90, a diversificação chegou ao setor da indústria na produção de papel e papelão (Santelisa), embalagem de plástico (YPlastic) e envase de água mineral natural (Naturágua). Já nas duas primeiras décadas dos anos 2000, a atuação se estendeu para os setores de distribuição de combustíveis (YPetro) e entretenimento (iPark).

A lógica da verticalização coloca o Grupo Telles entre as principais empresas do Nordeste. Esse modelo de intersecção dos negócios mantidos pela família permite à companhia desenvolver tecnologias, otimizar processos e equipamentos para, assim, possibilitar o máximo aproveitamento dos seus produtos e subprodutos, agregando valor, produtividade, diversidade de mercados, e reforçando o compromisso de desenvolvimento regional, social e ambiental.

Essa diversificação garante também rentabilidade. Neste ano, o faturamento do Grupo Telles chegará a R$ 360 milhões e a projeção para 2020 é alcançar R$ 440 milhões, superando o valor de quando a empresa era a dona da Ypióca. Nos quatro últimos anos, utilizando recursos próprios, a companhia investiu R$ 200 milhões em seus negócios e, em breve, deve estrear nos mercados de produção de biodiesel e de defensivos orgânicos. O patrimônio da família, conforme pesquisa da revista Forbes, está avaliado R$ 1,25 bilhão.

Foto divulgação: Grupo Telles