Expansão de terminais de gás natural vive “tempestade perfeita”

Relatório muda projeção feita no ano passado e afirma que problemas do setor não vão desaparecer com fim da pandemia

 

 

Um novo relatório divulgado nesta terça (7/7) pelo Global Energy Monitor (GEM) revela que os terminais de gás natural liquefeito terão pela frente um futuro pouco promissor. A combinação de produção excessiva, preços em baixa, diminuição de demanda em decorrência da pandemia e crescente oposição política ambientalista criou um cenário drasticamente diferente daquele apresentado pelo mesmo levantamento em 2019.

 

 

O relatório, com base nos dados mais recente do Global Fossil Infrastructure Tracker da GEM, destaca que a construção de terminais de GNL em todo o mundo mais que dobrou, passando de US ﹩ 82,8 bilhões para US ﹩ 196,1 bilhões em investimentos. Muitos desses projetos, em fase de construção ou pré-construção, estão em sério risco. Ao menos duas dúzias de projetos foram cancelados ou estão com atrasos de financiamento ou de construção. A queda sustentada nos custos das energias renováveis nos últimos meses agravou ainda mais a viabilidade dos projetos de gás.

 

 

Além dos reveses financeiros, o cenário político passou a ser de hostilidade ao setor. A coalizão para formação do novo governo da Irlanda incluiu uma série de concessões ambientais ao Partido Verde, e uma delas foi o cancelamento do projeto de terminal de GNL do estuário de Shannon. A medida, que estava na lista de interesses comuns da Europa, sofreu uma derrota adicional quando o Tribunal de Justiça Europeu decidiu que a permissão de planejamento do projeto era inválida. Na sequência, foi a vez da Suécia remover da mesma lista interesse comum do continente seu projeto para o terminal de gás Gotemburgo.

 

 

A Berkshire Hathaway, do megainvestidor Warren Buffett’s, gastou bilhões de dólares em financiamento para a Energie Saguenay LNG em Quebec, mas protestos em todo o Canadá contra os dutos tornaram o projeto uma odisséia política. A empresa desistiu do investimento no final de março. Em julho, a mesma companhia adquiriu a produtora de gás natural dos EUA Dominion por US ﹩ 4 bilhões — um negócio total de US ﹩ 10 bilhões, já que a empresa tinha dívidas de quase US ﹩ 6 bi. Em comunicado oficial sobre a aquisição, a Dominion afirmou que a venda “faz parte de uma série de medidas para se tornar uma companhia focada em produção de energia limpa eólica, solar e de gás natural.”

 

 

Energia suja

 

 

A expansão do GNL contradiz diretamente as metas climáticas de Paris, que exigem um declínio de 15% no uso de gás até 2030 e um declínio de 43% até 2040, em relação a 2020. Embora seja considerado um “combustível-ponte” por seus proponentes, a pegada de carbono de uma nova usina a gás na Europa ou na Ásia que queima GNL dos EUA é aproximadamente a mesma de uma nova usina a carvão no mesmo local. Isso porque há vazamento de metano em todo o sistema de suprimento de gás, que somado à penalidade energética do transporte marítimo de longa distância do produto, aumentam a pegada final do GNL.

 

 

“O GNL já foi considerado uma aposta segura para os investidores”, afirma Greig Aitken, analista de pesquisa da Global Energy Monitor. “Não apenas foi considerado um combustível ecológico, mas havia um apoio governamental substancial para garantir que esses megaprojetos – incluindo alguns dos maiores projetos do setor de capital já construídos – fossem conduzidos até a conclusão com todos os bilhões necessários. De repente, o setor está cheio de problemas.”

 

 

 

“Os problemas do GNL não desaparecerão magicamente com o fim da pandemia”, diz Ted Nace, diretor executivo da GEM. “No setor de energia, a modelagem mostra que os pacotes renováveis ​​já estão superando o gás importado na Coréia do Sul. E a cada ano que passa, as energias renováveis ​​se tornam mais competitivas.”

 

 

Sobre o estudo da GEM

 

 

A pesquisa da GEM sobre a infraestrutura de GNL é baseada no relatório Global Fossil Infrastructure Tracker (GFIT), um censo projeto-a-projeto de instalações de petróleo e gás desenvolvido pela Global Energy Monitor. O GFIT usa a mesma metodologia que o Global Coal Plant Tracker (GCPT), um censo bianual de usinas a carvão, licenciado pela Bloomberg Terminals e UBS Research, e usado pelo Banco Mundial, OCDE, Nações Unidas e imprensa especializada em economia