Descoberta científica pode eliminar praga de usinas hidrelétricas de todo o Brasil.

Projetos de combate ao mexilhão-dourado divulga avanços e entra em sua terceira fase, com execução da Bio Bureau e da hubz e financiamento da CTG Brasil, da SPIC e da Tijoá

 

 

Os problemas causados pela infestação do mexilhão-dourado nas áreas das usinas hidrelétricas brasileiras estão mais perto de uma solução definitiva. O projeto de controle da infestação do molusco por indução genética da infertilidade entra em sua terceira fase, comemorando os avanços obtidos na etapa anterior.

 

 

“Concluímos que não há diferenças populacionais significativas no genoma dos mexilhões presentes em reservatórios de diferentes hidrelétricas e que a solução biotecnológica que está sendo desenvolvida com base no genoma de animais que foram coletados em São Paulo tem tudo para funcionar em qualquer reservatório do Brasil”, explicou Mauro Rebelo, fundador e biólogo da Bio Bureau, empresa de Biotecnologia que executa pesquisas relacionadas ao mexilhão-dourado desde 2009.

 

 

Para chegar à conclusão, foram analisados mais de 8.000 locais do genoma (loci) de 30 indivíduos para investigar a variabilidade genética dos mexilhões em diferentes reservatórios ao longo do País: Garibaldi (SC), Itaipu (PR), Chavantes (SP), Jupiá (SP) e Sobradinho (PE). De acordo com Rebelo, “o objetivo agora é criar um protótipo do mexilhão geneticamente modificado, preparando-o para os testes no ambiente”. A expectativa é que isso leve à eliminação da praga ao longo do tempo, a partir da redução da taxa de reprodução do molusco e do combate à sua proliferação descontrolada.

 

 

Reforços no desenvolvimento da solução

 

 

A CTG Brasil e a Bio Bureau começaram a trabalhar juntas em 2017, por meio do programa de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e, desde então, o projeto já recebeu a contribuição da UFRJ e do Instituto SENAI de Inovação em Biossintéticos. Nessa nova fase, o grupo ganhou robustez, incorporando cientistas de diversos países e três novas entidades, uma executora e duas financiadoras.

 

 

A CTG Brasil continua liderando os investimentos, com R$ 5 milhões, enquanto a SPIC Brasil e a Tijoá farão aportes de R$ 2 milhões cada. “A inovação é uma das nossas principais diretrizes e apoiar projetos que desenvolvam soluções para o setor elétrico faz parte dessa estratégia. Estamos animados com os avanços apresentados até o momento e otimistas com a próxima fase”, afirma Soraia Quicu, coordenadora de Pesquisa e Desenvolvimento da CTG Brasil.

 

 

“Um projeto como este, com solução inovadora para as usinas hidrelétricas e para o setor energético brasileiro, encontra-se totalmente alinhado à filosofia de atuação da Tijoá, que tem na preservação ambiental e suas ações, uma vertente abrangente”, afirma Newton Sucupira, Diretor Presidente da Tijoá.

 

 

“Nosso objetivo neste projeto é apoiar uma estratégia eficaz, que foi pensada para proteger o ecossistema, e que ao mesmo tempo é uma inovação para o setor elétrico, que tem tido prejuízos com os males que este molusco causa nos reservatórios”, afirma Edmar Valério, gerente de Pesquisa & Desenvolvimento da SPIC Brasil. A Tijoá é responsável pela Usina Hidrelétrica Três Irmãos, no estado de São Paulo, e a SPIC Brasil opera a Usina Hidrelétrica São Simão, na divisa de Minas Gerais com Goiás.

 

 

A Bio Bureau segue liderando a execução do desenvolvimento da Biotecnologia, enquanto a hubz será responsável por desenvolver um método de medição da infestação nos reservatórios. José Lavaquial, diretor da hubz, afirma que “no final dessa etapa, poderemos conhecer a intensidade da infestação dos reservatórios, informação essencial para eliminar a praga. A futura solução depende de uma série de equipamentos, dispositivos e métodos que ainda não existem”, explicou.

 

 

Praga chegou ao Brasil acidentalmente

 

 

O mexilhão-dourado é considerado uma das espécies mais danosas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), pois entope as tubulações e turbinas de 40% das hidrelétricas brasileiras, causando um prejuízo anual de R$ 400 milhões ao setor elétrico.

 

 

A espécie se fixa em superfícies submersas e forma incrustações com colônias que podem atingir densidades de mais de 100 mil indivíduos por metro quadrado, provocando despesas com manutenção das unidades geradoras para remoção do molusco. Por não ter predadores, parasitas ou variações ambientais que reduzam o seu aumento populacional, o organismo infesta rios, lagos e reservatórios descontroladamente.

 

 

O molusco de água doce vive naturalmente nos rios da China e do Sudoeste da Ásia, mas foi introduzido acidentalmente na América do Sul há quase 30 anos por meio de navios mercantes que descarregavam nos portos argentinos no Rio da Prata. Hoje, o mexilhão já está espalhado por vários rios, tanto do Brasil como da Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia. Aqui, o primeiro registro ocorreu no Rio Grande do Sul, em 1999.

 

 

Atualmente o molusco está presente em grandes densidades nos rios Guaíba, Paraguai e Paraná, e mesmo na região do Pantanal, podendo atingir também da Bacia Amazônica, um dos ambientes de maior biodiversidade do mundo.

 

 

Foto divulgação: revista Ecológico