Crise do Covid-19 impacta relatório de Vendas e Produção da Petrobras

 

 

O relatório de produção e vendas da Petrobras, do segundo trimestre de 2020, mostra os impactos mais agudos que a petrolífera brasileira sofreu com a atual crise do Covid-19. Em relação ao mesmo período de 2019, a produção de óleo, LGN e gás natural cresceu 8,0% saltando de 2,55 milhões de barris por dia (mbpd) no segundo trimestre de 2019 para 2,76 mbpd no segundo de 2020. Em contrapartida, a produção de derivados registrou uma queda 7,0% de 1,77 mbpd no segundo trimestre de 2019 para 1,64 mbpd no segundo de 2020. Com essa retração, o fator de utilização das refinarias caiu de 76% no segundo tri de 2019 para 70% no segundo tri de 2020.

 

 

Apesar dos impactos da queda de demanda interna terem afetado significativamente o volume das vendas de derivados da Petrobras no mercado interno – uma queda de 13,3%, saindo de 1,72 mbpd para 1,50 mpbd entre os segundos trimestres de 2019 e de 2020 – essa queda foi mais do que compensada pelas exportações de petróleo cru e seus derivados, que subiram 58,7% no mesmo período (606 mil barris por dia para 962 mil bpd). Com efeito, o volume de vendas da empresa, entre o segundo tri de 2019 e o segundo tri de 2020, ainda aumentou 3,6%.

 

 

É preciso ressaltar, contudo, que a despeito dos resultados positivos do segundo trimestre, eles mostram uma tendência de esgotamento de algumas estratégias quando comparados ao trimestre anterior. Nesse sentido, é possível notar que em comparação ao primeiro tri de 2020, as exportações de petróleo cru registraram uma queda de 6,7% (806 mil bpd para 688 mil bpd). Se considerarmos que, em abril, a Petrobras atingiu seu recorde na exportação de petróleo cru, as exportações em maio e junho perderam forca significativa.

 

 

Por outro lado, as exportações de derivados continuam a manter um ritmo constante de crescimento. Entre o trimestre atual e o primeiro tri de 2020, o aumento foi de 21,77% (225 mil bpd para 274 mil bpd), e se comparados com o mesmo período de 2019 (190 mil bpd), o aumento no volume de exportações salta para 44,21%.

 

 

Ainda que representem a menor parte do volume total de exportações, o crescimento nas vendas de derivados para o mercado externo não é nada desprezível, sobretudo quando se tem em vista de que as margens de lucro dos derivados de petróleo tendem a ser maiores do que as registradas nas vendas de óleo cru. Segundo dados do site Bunkerindex, enquanto o preço do barril de petróleo de janeiro a junho sofreu uma queda de 37,89% o preço do óleo combustível do tipo bunker (o principal derivado exportado pela Petrobras no período) registrou uma alta de 22,67%. Em vista desses números, é possível inferir que os resultados fin

 

 

anceiros da Petrobras neste trimestre serão beneficiados pela valorização do preço e das maiores exportações do óleo combustível no cenário internacional.

 

 

Além disso, mesmo apresentando uma redução nas vendas internas de óleo combustível, a Petrobras pode mitigar essas perdas elevando seu market share no mercado interno de derivados de petróleo que subiu de 84,5% para 88,2%, segundo estimativas do Ineep. Ou seja, a redução de 8,3% não foi ainda maior por conta da Petrobras ocupar um espaço maior na venda de derivados no Brasil.

No trimestre anterior, a Petrobras havia anunciado um pacote de medidas para lidar com a atual crise. Em suma, a petrolífera apresentou cerca de cinco diretrizes para mitigar os efeitos da crise a partir do segundo trimestre: (i) redução de 200 mil barris por dia na produção de petróleo; (ii) diminuição de custos operacionais; (iii) otimização das produção de derivados, em favor do GLP e dos produtos com demanda por exportação; (iv) exportação de petróleo cru para a Ásia e (v) exportação de óleo combustível para diferentes mercados, com foco também na Ásia.

 

 

Comparando o projetado com o realizado, parece que a petrolífera conseguiu adotar um corte menos severo no seu volume de produção, tendo em vista que a redução de 100 mil barris na produção foi precisamente a metade do que a Petrobras havia anunciado, principalmente combinando o aumento de exportações com o ganho de market share no mercado interno, o que obrigou a companhia a elevar seu fator de utilização das refinarias.

 

 

Em outras palavras, o fato de a Petrobras ter suavizado a sua estratégia para enfrentamento da crise parece se dar por dois motivos principais. Em primeiro lugar, pela recuperação da demanda de diesel e gasolina no mercado interno entre maio e junho com relação aos dois meses anteriores, o que fez com que a Petrobras aumentasse tanto as vendas bem como o market share nesses produtos. Em segundo lugar, pelo aumento da demanda externa por alguns derivados (óleo combustível, sobretudo), o que pode ter indicado uma janela de oportunidade para a Petrobras expandir e diversificar a sua participação no mercado internacional.

 

 

Foto capa: Agencia Brasil